Inteligência coletiva


Se a ascenção da maré automobilística que caracteriza o século XX corresponde principalmente a um desejo de potência individual, o crescimento do ciberespaço, por sua vez, corresponde antes a um desejo a um desejo de comunicação recíproca e de inteligência coletiva. A esse respeito, é um erro comum confundir a auto-estrada eletrônica e o ciberespaço. O ciberespaço não é uma infra-estrutura técnica particular de telecomunicação, mas uma certa forma de usar as infra-estruturas existentes, por mais imperfeitas e disparatas que sejam. A auto-estrada eletrônica remete a um conjunto de normas de software, de cabos de cobre ou de fibras óticas, de ligações por satélite etc. Por outro lado, o ciberespaço visa, por meio de wqualquer tipo de ligações físicas, um tipo particular de relação entre as pessoas.

LÉVY, Pierre – 1999 pg. 124

No final dos anos 80, a comunicação baseada em informática permitiu aos jovens metropolitanos cultos criarem um movimento de exploração e construção dedos um espaço de encontro, compartilhamento e invenção coletiva. Se compararmos a Internet a um grande novo oceano informacional, devemos ressaltar a importância pequenos afluentes que o alimentam. Estes afluentes podem ser constituídos por redes independentes de empresas, associações, universidades, até o menor dos ambientes online que compôe o ciberespaço.

LÉVY, Pierre – 1999 pg. 125/126


Aqueles que fizeram crescer o ciberespaço são em sua maioria anônimos, amadores dedicados a melhorar constantemente as ferramentas de software de comunicação, e não os grandes nomes, chefes de governo, dirigentes de grandes companhias cuja mídia nos satura. Seria preciso falar dos visionários dos primeiros anos, como Engelbart e Licklider que, desede o início dos anos 60, pensavam que deveríamos colocar as redes de computador a serviço da inteligência coletiva, dos técnicos que colocaram para funcionar os primeiros correios eletrônicos e os primeiros fóruns, os estudantes que desenvolveram, distribuíram e aperfeiçoaram os primeiros programas de comunicação entre computadores, os milhares de usuários e administradores de BBS... Símbolo e principal florão do ciberespaço, a Internet é um dos mais fantásticos exemplos de construção cooperativa internacional, a expressão técnica de um movimento que começou por baixo, constantemente alimentado por uma multiplicidade de iniciativas locais.

Assim como a correspondência entre indivíduos fizera surgir o ‘‘verdadeiro’’ uso do correio, o movimento social que acabo de mencionar inventa provavelmente o ‘‘verdadeiro’’ uso da telefônica e do computador pessoal: O ciberespaço como prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, o ciberespaço como horizonte de mundo virtual vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir. Qualquer tentativa para reduzir o dispositivo de comunicação às formas midiáticasanteriores (esquema de transmição ‘‘um-todos’’ de um centro emissor em direção a uma perieria receptora) só pode empobrecer o alcance do ciberespaço para a evolução da civilização, mesmo se compreendemos perfeitamente – é pena – os interesses econômicos e políticos em jogo.

LÉVY, Pierre – 1999 pg. 126

Em resumo, podemos dizer que o ambiente virtual deve atingir a compatibilidade ou interoperabilidade generalizada. Qualquer um deve poder acessar de qualquer lugar as diversas comunidades virtuais e seus produtos. O ciberespaço deve ser uma ferramenta de organização de comunidades de todos os tipos e de todos os tamanhos e permitir que os coletivos inteligentes articulem-se entre si.
LÉVY, Pierre – 1999 pg. 132/133


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